sábado, janeiro 31, 2009

Um ano sem carne

Há um ano atrás, um amigo meu vegetariano disse-me que se sentia discriminado por não comer carne.

Disparate! – disse eu. Ele respondeu com o argumento que eu não podia saber porque nunca tinha experimentado não comer carne durante um periodo largo de tempo.

Com alguma descontracção disse, “ok, então durante o próximo ano não vou comer carne”. E assim foi.

Completa amanhã um ano que não como carne – que eu saiba.

Sobre este assunto poder-se-iam dizer muitas coisas. Podia falar do difícil que foi resistir às postas à mirandesa, chamuças, francesinhas, empadões de carne, entrecostos grelhados, panados, massas diversas, moussaka (quando estive na Grécia) etc.

Mas comecemos pela reflexão original que motivou este desafio: o lado social de não comer carne.

Nos primeiros tempos, foi dificil explicar às pessoas. Perguntavam-me “queres arroz de pato/ panados/ bife/ whatever?” e eu respondia, “eu não como carne”.

A resposta invariavelmente era de choque e estupefacção. “Não comes carne? Como assim, não comes carne?” E depois a pergunta, com o seu quê de desdém “não me digas que és vegetariana?!”

No princípio eu tentava não explicar que tinha sido uma “aposta”, queria perceber esta reacção.

Em geral as pessoas explicavam que era porque comer carne era um prazer tão grande que lhes custava a imaginar porque é que eu abdicaria de uma coisa assim.

E depois perguntavam “e vale a pena, ao menos, a aposta?” (já agora, esta aposta foi a nada, puramente uma questão de satisfação pessoal).

Invariavelmente, aparecia de seguida a tentaiva de suborno: “come à vontade que eu não digo a ninguém”, ou “a pessoa com quem fizeste a aposta não vai saber, de qualquer forma se a cumpriste ou não”.

A propósito - mais uma vez - eu cumpri. Não digo que seja impossível eu ter ingerido alguma carne disfarçada em alguma sopa na cantina ou ter comido algum resquício de molho de carne, quando comi batatas assadas à falta de outras opções, mas sempre que suspeitei que algo teria carne abstive-me de comer e isto parece-me “good enough” neste contexto.

Mas voltemos ao assunto da questão social.

Sabem, acho que consigo finalmente perceber o que me queria dizer o meu amigo quando se referia a discriminação.

As pessoas não me diziam “és menos boa pessoa por não comeres carne”, mas de facto era inevitável algum desconforto e “discriminação” social. Vamos fazer uma tainada, um jantar, uma festa: o que é a comida? 99% das vezes é carne. Vamos comer fora a um sítio que não conhecemos, o que é que se pede? 90% das vezes é carne, porque é mais dificil não se gostar. Se convidamos alguém para jantar em casa, o que é que fazemos? Vá vocês conseguem adivinhar esta...

Se querem saber, eu nunca disse a ninguém que ia, mas para terem atenção que eu não comia carne, e até cheguei algumas vezes a jantar arroz e batatas (o que não me fez mal nenhum, acrescente-se!), porque a ideia nunca foi embaraçar ninguém nem constranger ninguém a alterar a sua rotina ou os seus planos.

Mas o facto é que isto deixa as pessoas desconfortáveis.

Outra coisa importante que deixa as pessoas desconfortáveis (e atentem no facto que eu sempre comi peixe e ovos, não sendo propriamente uma “vegetariana”) é a razão pela qual não se come carne.

E a pergunta era sempre feita de forma desconfiada “e porque é que não comes carne?”
Honestamente, penso que a pergunta era feita desta forma, com a tirada seguinte “não me digas que és vegetariana?!” de forma defensiva, porque toda a gente conhece um ou dois vegetarianos que se acham moralmente superiores por não comerem carne. E que se alargam sem pudor acerca dos motivos ético-morais e dos benefícios ecológicos desta opção, senguindo-se a cereja em cima do bolo que é o chamado sermão “porque é que a carne é o pior veneno para o organismo e porque é que os vegetarianos é que são as pessoas mais saudáveis” (acreditem que eu conheço bem este discurso – com o meu mau feitio nunca disse ao meu ex-namorado vegetariano que não comia carne, o que me dava direito a sermão e missa cantada semana sim, semana não).

Este tipo de razões endógenas deixa as pessoas em geral desconfortáveis e a argumentar os motivos porque se come e deve comer carne. Aliás, mesmo quando eu admiti que era por uma questão tão parva como uma aposta, ou quando menti dizendo que era pelos mais diversos motivos (afinal há que viver as diferentes vertentes da experiência!) tive de ter varias vezes a conversa “comer carne faz-te falta, olha que ainda ficas doente”.

E nem com o facto incontornável de que de facto a mim a carne não me faz grande falta porque eu tenho uma condição genética rara, conseguia sossegar a discussão.

A propósito, nunca fiquei doente, muito pelo contrário, nunca tive as análises tão boas (não quero levantar celeumas: eu tenho objectivamente uma condição genética que faz com que não comer carne melhore as minhas análises, e se estão tão desconfiados como eu imagino, eu explico, tenho uma anemia que me provoca excesso de ferro e ácido úrico muito elevado, mesmo não comendo carne, mariscos ou bebendo cerveja).

By the way, se quiserem fazer alguma coisa socialmente menos aceite, e quiserem evitar discussões e intromissões dos porquês e porque nãos, digam que estão a fazer alguma coisa por motivos de força maior como saúde (a melhor de todas, mas não sejam muito detalhados) ou motivos religiosos ou pessoais (sem especificar muito, para dar a ideia que está fora do vosso controlo).

Já para o final do ano, deixei a experimentação social, confesso. Os desafios pessoais e as dificuldades de não poder comer carne tornaram-se complicados de gerir a partir de Outubro. Nessa altura comecei a dizer que não comia carne por uma aposta e que já só me faltavam x meses, o que fazia com que eu obtivesse algum reforço social importante perante as dificuldades de não poder comer carne.

Amanhã, o dia em que termina a “promessa”, o vínculo, o desafio, o que lhe quiserem chamar, combinei ir comer uma posta à mirandesa a Bragança.

Sim, vaquinha bebé.

Dêem-me um desconto, que parte da minha família é transmontana.

Tenho várias coisas combinadas com diferentes amigos que querem ir comigo comer petiscos de carne (nomeadamente francesinha).

Mas se querem saber, apesar de deixar de existir a obrigação de não comer carne, tenho a expectativa que, de ora em diante, vou comer bem menos carne e apenas quando existirem condicionantes sociais. Curioso, não?

1 comentário:

inês costa disse...

tudo isso é rigorosamente verdade. a primeira vez que notei essa espécie de aura em torno da carne foi no meu primeiro ano de faculdade. nesse ano começaram os pratos vegetarianos na cantina e os primeiros tempos foram de uma resistência silenciosa. quando alguém trazia uma redundância de verde no prato, o comentário geral era qualquer coisa na linha do "mas vais comer essa mixórdia porquê?"...