sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Hoje gostava de partilhar contigo algo em que tenho andado a reflectir.

Isto surgiu com uma referência a Kundera num workshop e acho que tocou-me uma qualquer corda ou supercorda (ehehehe) mais sensível.

Diz Kundera (e os construtivistas em geral) que só se vive uma vez e esta é a primeira (n'A insustentável leveza do ser, que eu ainda não li) ou que a vida é uma peça de teatro que estamos a representar pela primeira vez, sem nunca antes termos pisado um palco ou tido qualquer tipo de ensaio. Ou seja, aquilo que fazemos ao longo da vida é de mero improviso, escolhendo sempre o que nos parece ser melhor em cada momento, mesmo que chegue o seguinte e mudemos de opinião.

Deste modo, cada um de nós tem legitimidade, direito, dever.. sei lá... Intrínseco na sua condição humana... Ser diferente de todas as outras pessoas.

Porque o tipo de experiências que cada um vive é único e irrepetível, é absurdo falar de melhor ou pior quando se trata de avaliar escolhas de vida... Porque é na diversidade de que falava há pouco que assenta o que de mais básico há em cada um de nós: a nossa eterna busca da felicidade (salvaguardada pela própria Declaração Universal dos Direitos do Homem), que apenas se concebe em liberdade e na reserva da dignidade humana... Como o próprio Skinner admitiria, o reforço só tem valor de recompensa mediante o valor (significação) que cada um lhe atribua... Daí que para mim a felicidade tenha uma imagem nítida de uma manhã de sol numa cama de lençóis muito brancos (uuuuuh :P) e para ti possa ter o rosto de um passeio na praia... "São opções de vida" diria o cliché. Pois são.

O que eu quero concluir daqui é que (não sei se concordas comigo, se sentes isto também) muitas vezes nos sentimos compelidos a ser "normais" a agir "normalmente", e quando não nos mantemos próximos dessa "norma" o suficiente tendemos a sentir-nos mal, culpados (já para não falar dos processos de rotulação social que o nosso amigo Scheff tanto explorou)...

Mas o que é verdadeiramente estranho, divertido... Irónico... Essas coisas que a vida nos deixa perceber quando estamos atentos, é que, se ultrapassarmos a culpa, a vergonha, o sentimento de anormlidade, perceberemos que por trás dos olhares de reprovação (que são os primeiros a aparecer, porque estão mais perto da superfície), a maior parte das pessoas com quem nos damos são tão ou mais anormais que nós, com tantos ou mais arrependimentos, dúvidas e confusões que nós... E curiosamente, têm muitas vezes os mesmos problemas inconfessáveis que nós...

Não tenho bem a certeza se consegui transmitir com clareza aquilo que pretendia, porque se calhar estou como de costume a dizer-te com o entusiasmo de uma grande novidade algo que para ti é mais do que óbvio, mas o que eu quero dizer é que cada vez mais acho que não podemos dizer que esta escolha é melhor do que aquela... Podemos dizer que esta escolha é um caminho mais directo para um qualquer objectivo... Mas também nos podemos lembrar que às vezes o que interessa não é a chegada, é a viagem... Que nem sempre se quer curta, rápida e sem trepidações...

Boa noite *****

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