"But the attitude of faith is to let go, and become open to truth, whatever it might turn out to be." Allan Watts / "Finish your goddamn plate" Joshua Fields Milburn
Depois de uns meses em que estive a meio gás em quase tudo na minha vida e com maior ou menor culpabilização, heis que finalmente está na hora de me erguer à altura da situação e começar a trabalhar e a investigar aprofundadamente.
E nesta altura, surge-me a questão: será que é isto que quero? Isto é, eu sei que gosto de estudar e de investigar, de questionar os +paradigmas de ter longas e aprofundadas questões metafísicas e de debater conceitos. Gosto MESMO. Lembro-me sempre da alegria quase incontida das minhas discussões com a Teresa durante o Mestrado em que ela, orientadora de 1.ª classe me permitia colocar as questões mais bárbaras subverter os paradigmas e conseguia levar-me a sério pensando seriamente sobre o que lhe colocava.
Mas... à medida que volto a estudar para nova tese, apercebo-me não só do trabalho árduo que isso implica mas dos sacrifícios pessoais e sociais que acarreta. Não é possível simplesmente desligar do que se está a fazer a meio de um processo produtivo (para mim pelo menos) e não escrevemos quando decidimos... É preciso alguma dose de inspiração. O trabalho intelectual é profundamente desgastante e não pode ser medido da mesma forma que o restante. Não pode.
Para mim, no máximo da minha produção científica, sei que não tenho horários, nem possibilidade de outros compromissos... E sei que passo por muitos momentos de pura agonia. Um sofrimento só.
E no entanto é disto que sinto saudades quando estou a "executar" um qualquer trabalho de outra natureza.
Mas não sei se quero pagar o preço de uma vida social e familiar em que sou ausente...
Será possível conjugar ambas? Há quem consiga... Qual é o segredo?
Death, be not proud, though some have called thee Mighty and dreadful, for thou art not so; For those whom thou think'st thou dost overthrow, Die not, poor Death, nor yet canst thou kill me. From rest and sleep, which but thy pictures be, Much pleasure; then from thee much more must flow, And soonest our best men with thee do go, Rest of their bones, and soul's delivery. Thou art slave to fate, chance, kings, and desperate men, And dost with poison, war, and sickness dwell; And poppy or charms can make us sleep as well And better than thy stroke; why swell'st thou then? One short sleep past, we wake eternally, And death shall be no more, death, thou shalt die.
Apegamo-nos às coisas que temos, às nossas conquistas e em particular aos nossos projectos e sonhos como se fossem direitos inalienáveis e inabaláveis.
Ficamos aflitos quando nos roubam a carteira, o carro, a casa. Quando percebemos que a "nossa" promoção foi para outra pessoa, que o nosso amor já não nos quer.
Quando percebemos que uma pessoa "próxima" vai morrer sentimos uma perda não muito diferente e sempre egoísta (porque por vezes o melhor para as pessoas é mesmo partirem). Porque são os próximos que nos dão a sensação de segurança e de que não estamos sós de que tanto precisamos. Porque nos habituamos a ter a vida povoada daquelas pessoa, de tal forma que não concebemos a existência sem elas.
Quando a pessoa que nos morre (reparem na expressão idiomática "a pessoa que NOS morre", como se fosse algo que a pessoa faça a outrém) é um filho, a experiência é ainda pior. Porque os filhos facilmente se tornam na razão de ser dos pais, o motivo pelo qual vão cedo para casa, a justificação de pouparem dinheiro e se privarem de coisas, o pretexto para procurarem determinadas experiências, para saírem de casa, o vício da sua vida.
Ana Granja refere em "Sem ti, Inês" que ainda hoje procura nas lojas as coisas de que a filha gosta. Que perder os pais é perder o passado, mas perder os filhos é perder o futuro. E que é uma coisa tão terrível, tão contra-natura, tão fora do imaginável que nem as línguas concebem uma palavra para isso: quem perde os pais é órfão, quem perde o cônjuge é viúvo: e quem perde os filhos?...
A sessão de lançamento do livro de Ana Granja foi intensa, poética, humana e viva - porque viver é sentir, é existir, é partilhar.
Mas confesso que a voz que me tem assaltado é a do pai de outra menina que no final contou para todos ouvirem, como tinha recentemente encontrado um bilhete da filha já falecida, dizendo que ele era o melhor pai do mundo. E como se percebeu a dor na sua voz quando disse que não lhe restava agora alternativa, mesmo no dia do Pai, de continuar a seguir em frente, porque é essa a sua obrigação.
A TUA MORTE EM MIM
II A morte é sempre nova em mim. Não amadurece. Não tem fim. Se ergo os olhos dum livro, de repente, tu morreste. Acordo, e tu morreste. Sempre, cada dia, cada instante, A tua morte é nova em mim Sempre impossível.
É assim, até à noite final. Irás morrendo a cada instante da vida que ficou fingindo vida. Redescubro a tua morte como os outros descobrem o amor, porque em cada lugar, cada momento, tu estás viva.
Conheci uma pessoa absolutamente hiperactiva e produtiva que me disse que um dos truques dela era gravar na memória, de forma gráfica e detalhada momentos em que se sentia feliz, satisfeita e em paz.
Hoje, estou na FEP, na sala dos Doutorandos. Estou virada para a janela gigante e acabei de limpar o mail, depois de almoço e depois do café que trouxe comigo. Está ameno e quente, sem estar demasiada luz nem demasiado sol. Atrás do monitor vejo o céu azul árvores altas que se agitam de forma levíssima. A sala está em silêncio, salvo o constante ruído abafado do teclar nos computadores, serenamente.
E tenho a tarde toda para estudar e aprender coisas novas.
- No Sábado adormeci com esta mensagem na cabeça e depois não a enviei. Mas queria-ta dizer à mesma. Ia escrever-te "obrigada por tornares a vida dos que te rodeiam um pouco melhor.", porque é mesmo isso que sinto.
Depois do fim de semana falhado que tive, em que me senti uma inútil incapaz, abracei-a, agradeci-lhe e apeteceu-me chorar de comoção.