segunda-feira, dezembro 31, 2007

Receita de ano novo

(Carlos Drummond de Andrade)


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)



Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que
por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

domingo, dezembro 30, 2007

If pleasures are greatest in anticipation, just remember that this is also true of trouble. (Helbert Hubbard)

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Feliz!


quinta-feira, dezembro 20, 2007

Estava quieto do seu canto e eu já quase me esquecera dele.
Tenho um medo terrível dessas criaturas!

Mas não podia ficar quieto para sempre, não é? A menos que tivesse morrido, as suas patas peludas haveriam de se mover e agitar toda a teia, mais cedo ou mais tarde.

E eu, que estava do outro lado da sala, sem coragem de o matar, porque vai contra os meus princípios éticos, estremeci e fiquei inquieta, sem saber muito bem o que fazer, rezando só para que ele não se lembrasse de vir na minha direcção.

Porcaria de sentimentos com vontade própria!

domingo, dezembro 16, 2007

A ovelha do principezinho e os jogos de sedução

(...)Desenha-me uma ovelha.
Então eu desenhei.


Olhou atentamente, e disse:
- Não! Essa já está muito doente. Desenha outra.
Desenhei de novo.
Meu amigo sorriu com indulgência:
- Bem vês que isto não é uma ovelha. É um carneiro... Olha os chifres...
Fiz mais uma vez o desenho.
Mas ele foi recusado como os precedentes:
- Esta é muito velha. Quero uma ovelha que viva muito.
Então, perdendo a paciência, como tinha pressa de desmontar o motor, rabisquei o desenho ao lado.
E arrisquei:
- Esta é a caixa. O carneiro está dentro.
Mas fiquei surpreso de ver iluminar-se a face do meu pequeno juiz:
- Era assim mesmo que eu queria! Será preciso muito capim para esse carneiro?
- Por quê?
- Porque é muito pequeno onde eu moro...
- Qualquer coisa chega. Eu te dei um carneirinho de nada!
Inclinou a cabeça sobre o desenho:
- Não é tão pequeno assim... Olha! Adormeceu...
E foi desse modo que eu travei conhecimento, um dia, com o pequeno príncipe.



Hoje, enquanto voltava ao "Principezinho" de Saint-Exupery, foi-me impossível não parar de novo neste excerto e compará-lo a um outro conceito diferente: os chamados "jogos de sedução".


O Principezinho pede ao aviador que lhe desenhe uma ovelha, mas nenhuma das ovelhas que ele rabisca, por mais cuidados que tenha, o satisfazem: ora parece doente, ora é velha, etc, etc, e quantas mais ovelhas o aviador continuasse a desenhar, mais defeitos o Pricipezinho lhe poria. A única solução foi fazer uma caixa e dizer: o que tu queres está lá dentro.


Este acto de deixar à consideração do outro, de o fazer adivinhar como será o que está dentro da caixa, torna o seu conteúdo "perfeito" ou pelo menos interessante/apaixonante aos olhos da pessoa que não sabe o que está guardado; e a chave muitas vezes está não só na forma como vamos desvendando o que está escondido da vista, mas também o facto de a pessoa ter de "abrir a caixa".


Muito à semehança daquilo que fazemos na generalidade dos jogos de sedução, a ideia é não mostrar demasiado de uma só vez, deixando o outro curioso e interessado, até lhe desvendar o seu conteúdo, aos poucos, e apenas se ele usar a chave certa para a abrir.


Por vezes, descobrimos depois que o conteúdo da caixa não é bem o que queríamos à partida, mas afinal até nos dá mais jeito, outras que afinal não nos interessa mesmo nada... Mas a nossa disponibilidade para tentar está muitas vezes condicionada pelo facto de nos ser apresentada a priori uma ovelha com todos os seus defeitos e virtudes declarados, ou uma caixa fechada, onde pode estar qualquer coisa.


E, é claro, que toda esta conversa de caixas, omite ainda uma importante caractística humana, de adaptabilidade e capacidade de mudança: quem diz que aquilo que entrou na caixa é necessariamente aquilo que sai? E quantas vezes damos por nós a mudar e a conceber projectos de vida que nunca tínhamos imaginado fazer?


E tudo isto, porque nos "encaixamos"...

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Natal

Quem me conhece sabe que toda eu sou Natal, nesta e noutras alturas do ano.

Uma vez a Oprah (sim, a Oprah, eu via a Oprah, ok? Don't you judge me!) comentou sobre uma coisa que "era tão boa que ela tinha mesmo de a partilhar" e é exactamente assim que eu sinto o Natal: um sonoro e gigantesco pretexto para partilhar e estar com as pessoas de quem eu gosto, para telefonar aos amigos com quem não falo há muito e mesmo àqueles com quem já perdi o tema de conversa...

Eu adoro o Natal.

E hoje fuì "cravada" pela minha mãe para comprar prendas de Natal com ela, porque é uma tarefa relativamente aborrecida e ingrata para a maioria das pessoas e para mim, geralmente, não.

Queria só dizer-vos que hoje finalmente eu percebi porque é que há pessoas que tanto detestam esta época "festiva".

Dentro daquele supermercado atafulhado de coisas, brinquedos, chocolates, guloseimas, papéis, laços, etc, foi-me inevitável sentir, não a alegria, mas a angústia dos transeuntes. Cada coisa era medida e pesada, o que eu posso comprar e não posso, o que gostaria de ter e não tenho e há tanta gente que tem, o que o meu filho quer e está fora do meu orçamento... Quem e queria ver e encontrar e não pode ser... E toda aquela parafernália, a pretexto do Natal, ali, a esfregar na cara de quem passa tudo o que não se pode e tudo o que não se tem, materialmente e não só.

Confesso que mal cumprimos a nossa missão de comprar as prendas para a pequenada da família, eu só queria realmente sair dali.

E confesso que naquele momento também eu detestei o Natal... E não estou segura se já fiz as pazes com ele...

domingo, dezembro 02, 2007

Filmes da minha vida

Finalmente respondendo ao desafio da Jacky :)
Aqui estão os 5 filmes que mudaram estranhamente a minha vida, sem nenhuma ordem em particular.


O BICHO DE SETE CABEÇAS


Vivi com dois brasileiros no semestre passado e vimos bastantes coisas "made in Brasil". Uma delas foi este filme com um enredo completamente fora do comum

"Mudou estranhamente a minha vida" porque me deu uma visão diferente, e encarnou os efeitos e consequências nefastos das "instituições totalitárias" (como por exemplo, os manicómios) numa altura em que eu era voluntária numa destas organizações (um centro de desintoxicação), ao mesmo tempo que reforçou em mim o debate da construção social da doença mental.

Devia fazer parte do currículo de Psicologia e aconselho vivamente a qualquer pessoa que queira abrir os seus horizontes e perceber melhor os outros, sobretudo os mais incompreensíveis.

DOGVILLE


Este também não é um filme propriamente "alegre" e é claramente "alternativo". Ilustra como a vida pode mudar uma pessoa, como se alteram as regras do jogo por força das circunstâncias e quase sem nos darmos conta, etc... Haveria muito, muito mais a dizer sobre este filme, mas prefiro deixar-vos com "água na boca": no final do filme, o meu grupo de amigos saiu a discutir afincadamente o seu conteúdo e significado e deu pano para mangas no "café pós-filme".


O FABULOSO DESTINO DE AMELIE POULAIN



Simples e um pouco ingénuo, mas irresistível. Gostamos de pensar que aquilo que fazemos de bom "volta para nós". E se calhar até volta. Mudou estranhamente a minha vida porque faz a apologia dos prazeres simples da vida... Ainda hoje não passo por um balcão de feijão seco no supermercado sem lá mergulhar a mão :))

BELEZA AMERICANA

As razões deste filme não cabem todas aqui, mas sempre que oiço a música do início do filme e o Kevin Spacey a começar a relatar o seu dia, arrepio-me! Mais uma vez, a fragilidade da vida, taking what you have for granted, etc. etc...


WEAR SUNSCREEN



Este clip, não sendo propriamente um filme continua a fazer parte dos meus rituais anti-depressão... E muda sempre a minha disposição e assim, estranhamente, a minha vida :)

Conselhos, não é? Se fossem mesmo, mesmo bons...

Mas às vezes até são!



Passo o desafio à João, à Sara, ao Pedro, ao Ricardo e à Xana, sabendo à partida das dificuldades da escolha :)