segunda-feira, outubro 29, 2007

Porque é que a galinha atravessou a estrada?


José Sócrates: Porque é porreiro, pá, porreiro.
Jardim Gonçalves: Para pagar as dívidas do filho.
Platão: Por um bem maior.
Karl Marx: Era uma inevitabilidade histórica.
Maquiavel: Para que os seus súbditos a vissem com admiração, como uma galinha que tem a ousadia e a coragem de atrvessar a estrada, mas também com medo, pois quem mais entre elas teria a força de fazer contenda com tal parágona de virtude aviária? Desta forma é mantida a dominação do príncipe.
Hippocrates: Devido a um excesso de gosma cor de rosa clara no seu pâncreas.
Torquemada: Dêem-me dez minutos com a galinha e já vos digo.
B.F. Skinner: Porque as influências externas que prevaleciam no seu campo sensorial desde o nascimento fizeram que se desenvolvesse de tal forma que tenderia a atravessar estradas, mesmo quando pensava que o fazia de livre vontade.
Ludwig Wittgenstein: The possibility of "crossing" was encoded into the objects "chicken" and "road", and circumstances came into being which caused the actualization of this potential occurrence.
Albert Einstein: Se a galinha atravessou a estrada ou a estrada atravessou a galinha depende do quadro de referência de onde se parte.
Salvador Dali: O Peixe.
Darwin: Era o próximo passo evolutivo, após descer das árvores.
Epicurus: Para se divertir.
Ernest Hemingway: Para morrer. À chuva.
Jack Nicholson: 'Cause it (censored) wanted to. That's the (censored) reason.
A Esfinge: Diz-me tu.
Mr. T: If you saw me coming you'd cross the road too!
Henry David Thoreau: To live deliberately ... and suck all the marrow out of life.
O Padrinho: Não queria que a mãe a visse assim.
Dr Johnson: Sir, had you known the Chicken for as long as I have, you would not so readily enquire, but feel rather the Need to resist such a public Display of your own lamentable and incorrigible Ignorance.
Supremo Tribunal Sovietico: Nunca houve uma galinha nesta fotografia.
Freud: An die andere Seite zu kommen. (Risos)
Hamlet: Essa não é a questão.
Donne: Ela atravessa-a por ti.

domingo, outubro 28, 2007

Mudança

"Perante o mundo que muda, mais vale pensar a mudança que mudar o pensamento."
F. Blanche

Passamos uma boa parte da nossa a vida a pensar o que somos, o que queremos e o que não toleramos. À medida que o tempo passa e "crescemos", "amadurecemos", vamos aprendendo a conhecer as nossas reacções e os nossos sentimentos, aquilo que nos faz mexer, e o que nos trava, o que nos faz felizes e o que nos prejudica.

À medida que o tempo passa, aprendemos a saber mais cedo as pessoas com quem teremos alguma ligação, ou aquelas que nem sequer vale a pena iniciar uma conversa. Somos mais rápidos e mais eficazes a saber o que queremos de uma determinada situação, (quase?) à partida.

Vamos adquirindo uma certa sabedoria ou esperteza, como queiram chamar, porque vamos adquirindo a capacidade de moldar as situações às nossas necessidades, na medida do possível.

E, em parte, a isto se chama crescer.

Noutra parte a isto se chama petrificar, congelar, morrer.

As nossas categorizações são úteis, porque são confortáveis e eficientes na maioria da nossa vida quotidiana. Que tempo ou condições temos objectivamente para escolher, por exemplo, em que sítio nos sentamos numa mesa de jantar de um grupo pouco conhecido? Naturalmente, fazemos uma escolha rápida e dentro daquilo que a nossa experiência de vida nos diz. Optamos ou não por ficar ao lado da pessoa que está a fumar, da que que se ri alto, da que tem o cabelo azul, etc, etc, etc...

Nas restantes situações, em que temos muito tempo, ou que até são importantes para nós, estas coisas a que chamamos aprendizagens prévias, por muita utilidade que tenham, são pouco mais do que entraves, constituindo, objectivamente, preconceitos.

São o que nos faz desistir à partida, são o que nos faz virar costas a situações que desconhecemos, mas que a priori parecem menos boas. São o que nos faz ter menos fé e confiar menos nos outros, criando "barreiras de defesa"... E são o que nos faz embirrar com os mais velhos, que acham que têm sempre razão e nem sequer tiram uns minutos para tentar perceber o que se passa dando sempre a sua sentença (que é normalmente previsível e imutável) à partida.

Suponho que a chave é tentar manter de alguma forma o equilíbrio, sem rigidificar demasiado aquilo que achamos que somos e que queremos para nós. Ser flexivel sem ser ingénuo é muitas vezes difícil, mas imagino que possa acontecer e deve haver gente que consiga porque eu até conheço pessoas que são felizes.

Elbert Hubbard dizia que um fracasso é uma pessoa que falhou e foi incapaz de aprender com essa experiência.

Pessoalmente, espero que esta experiência faça com que, da próxima vez, não deixe que aquilo que aprendi me impeça de arriscar o fracasso.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Reset me



Percebi a dura realidade e aceitei-a, não sem antes me debater com ela. Todos os "se's" que ecoaram incessantemente na minha cabeça e são inexpugnáveis porque estão no passado, fora do meu alcance, pararam. Eu parei. Claro, nada mais parou, para meu desespero.

Gosto de pensar que tenho agora uma clareza de espírito que antes não possuía, que consigo pensar além de mim mesma, aceitando as coisas que não posso mudar, pacificamente, de forma quase estóica.

E às vezes consigo mesmo. Outras vezes limito-me a desesperar porque não consigo ver nada além do meu umbigo.

Por agora sinto só que preciso de me desligar e voltar a ligar.

O Perfume

Ela não gostava do perfume dele. Era forte e doce e incomodava-a.
Cheirar o pescoço da pessoa amada, enquanto lhe dava um abraço intenso era um ritual que lhe agradava particularmente, e toda a actividade de “respirar” a outra pessoa era algo a que dava realmente muita importância.
De entre as pequenas grandes coisas de uma relação para ela estava o sentir o cheiro da outra pessoa colado a si após um encontro, esgueirando-se e espreitando inesperadamente em determinados movimentos. Apreciava como cheiro ficava entranhado na sua pele e cabelo mesmo após o banho, como ele era intenso quando vestia uma peça de roupa da outra pessoa, como ele lhe dizia inequivocamente que a outra pessoa estava na sua vida.
Mas neste caso, e embora ela conseguisse distinguir o odor dele e o do perfume, o significado do cheiro não conseguia superar o facto de aquele não era, para ela, um odor aprazível.
Acrescia claramente e espicaçava a sensação de desagrado relativamente àquela fragrância o facto de sentir que aquele perfume era um laço que o unia a um passado relacional de que ela não fazia parte.


Ele usava aquele perfume havia anos e até tinha uma embalagem de viagem.
Tinha sido uma oferta de alguém que o conhecia excepcionalmente bem e desde então o perfume tinha-o acompanhado em muitos momentos importantes e marcantes da sua vida, como se fosse uma espécie de contínua banda sonora aromática.
Identificava-se profundamente com o seu perfume e ele era uma das poucas constantes da sua vida que se mantivera perante as muitas e duras mudanças que tivera de enfrentar nos últimos anos.
Após o primeiro frasco, tornara-se um presente frequente, algo que lhe ofereciam as pessoas mais próximas nas ocasiões mais distintas e que implicitamente revelava um laço forte de conhecimento e atenção, porque as pessoas não só conheciam o seu perfume como sabiam quando ele estava a acabar.
Aquele simples e comercializável frasco a que não devotava muita atenção constituía uma opção que não mudaria de mote próprio.

De alguma forma aquela era a metáfora perfeita da relação que tinham tido. Ela disse-lhe que não gostava do perfume dele; ele nunca o mudou nem deixou de o usar com ela.

O perfume não lhe era intrínseco, constituía uma opção. No entanto, não se tratava de uma opção banal; tratava-se de uma escolha a que quer se dê muito valor quer não, o acompanharia quotidianamente e, de forma mais ou menos explícita, faria parte da sua identidade, lhe diria que algo se tinha modificado.
Ao dizer-lhe que não gostava do perfume dele, ela estava desde logo a dizer-lhe que ele teria de mudar. Ao não estar disposto a mudar ou sequer a abdicar de usar o perfume com ela, ele estava a dizer que não faria concessões com facilidade.

Mas o simples e evidente facto permanecia que o perfume dele era para ela desagradável e que ele não abdicava dele. Não obstante, a razão porque lhe doía na alma pensar que ele nem sequer se dignava a não o usar nas ocasiões em que se encontrava com ela, era a clara intuição de que aquela relação jamais poderia funcionar.